VAIAPRAIA

Independentemente do real motivo pelo qual Rodrigo intitulou de 1755 o primeiro LP de Vaiapraia, é impossível não comparar este punhado de grandes canções a um terramoto musical de dimensões das ondas que assolaram Lisboa nesse fatídico ano. A capital nunca mais foi a mesma, reinventando-se depois de recuperar do atordoamento. Não haja dúvidas, 1755 é um marco no panorama musical nacional que nos atira à tromba de uma forma totalmente despudorada os medos de Rodrigo que são os de muitos de nós numa sociedade normativa e estigmatizante para com a diferença.

As nossas vergonhas, a homossexualidade, o abuso sexual das mulheres, a masculinidade tóxica, o pavor do HIV, em 1755 não há tabu que não seja confrontado olhos nos olhos, com provocação e humor.

As canções de Vaiapraia, segundo as palavras de Rodrigo, são subsidiárias das suas ideias. A parte instrumental eleva-as com guitarras esgatanhadas e o ranger garage punk sem floreados. Uma combinação que em palco adquire a sua forma mais poderosa, contagiando mesmo aqueles com alergia ao movimento.

1755 é um álbum fabuloso, sem subterfúgios, turbulento, que não nos pede licença para se apoderar das nossas emoções, um álbum que, como os grandes terramotos, perdurará com as réplicas que se seguirão e com as mudanças que inevitavelmente arrastará. Venham muitos como este.

É uma honra ter Vaiapraia num dos palcos do Basqueiral.

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